No interior da Paraíba, a cerca de 66 km de João Pessoa, o município de Itapororoca preserva uma realidade rara no Brasil: há mais de seis décadas, seus moradores não pagam conta de água.
Desde 1961, o abastecimento é garantido por uma nascente localizada no Parque Ecológico da Nascença. A água desce por gravidade, sem necessidade de bombas ou motores, diretamente para a caixa central de distribuição da cidade. O sistema, que começou atendendo cerca de mil famílias, hoje abastece mais de cinco mil residências na zona urbana.
O nome Itapororoca tem origem tupi: “itá” significa pedra, enquanto “pororoca” remete ao encontro das águas com as rochas — uma descrição fiel do que ocorre no subsolo da região. Formações rochosas de origem vulcânica absorvem a água da chuva e a liberam gradualmente, mantendo a nascente ativa durante todo o ano, inclusive em períodos de seca no semiárido.
A emancipação do município ocorreu por meio da Lei nº 2.701, de 28 de dezembro de 1961, quando deixou de ser distrito de Mamanguape. Desde então, o abastecimento gratuito passou a integrar a identidade local.
Uma lei municipal reconhece o acesso à água como direito inalienável da população. No entanto, o crescimento da cidade tem levantado debates sobre a sustentabilidade do modelo. A concessão do serviço à Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) já foi aprovada, mas até o início de 2026 não havia definição sobre quando a empresa assumirá a gestão.
Parte da população vê a mudança como necessária para garantir tratamento adequado e modernização da rede, que ainda utiliza tubulações antigas e não possui estação central de tratamento. Outros moradores temem o fim de um sistema que atravessou gerações e transformou a água em símbolo de identidade coletiva.
Entre trilhas de Mata Atlântica, produção agrícola — com destaque para o abacaxi — e formações rochosas vulcânicas, Itapororoca carrega uma história singular: a de uma cidade onde a natureza definiu as regras do abastecimento por mais de 60 anos.
