A presença de regras para a venda de alimentos nas escolas está associada a um menor consumo de ultraprocessados entre adolescentes. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com base em dados de mais de 81 mil estudantes de todas as capitais brasileiras.
A pesquisa analisou informações da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019, realizada pelo IBGE, cruzando os dados com um levantamento das leis, decretos e normas estaduais e municipais que regulam a comercialização de alimentos em escolas públicas e privadas.
Os resultados indicam que adolescentes que estudam em capitais com normas claras para cantinas escolares tendem a consumir menos alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, doces, embutidos e macarrão instantâneo. Já em escolas onde há maior oferta desses produtos, o consumo relatado foi mais elevado.
Mesmo após ajustes por fatores como idade, sexo, escolaridade da mãe, tipo de escola, renda familiar e região do país, a associação entre regulamentação e menor consumo de ultraprocessados permaneceu significativa.
O estudo também mostra que a simples existência de cantinas influencia os hábitos alimentares. Entre escolas que possuem esse espaço, quanto maior a variedade de ultraprocessados disponíveis, maior foi o consumo informado pelos estudantes.
Diferenças entre redes e regiões
Nas escolas públicas, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) estabelece diretrizes que priorizam alimentos in natura ou minimamente processados, o que tende a reduzir a presença de ultraprocessados. Já nas escolas privadas, onde o programa não se aplica, a cantina costuma ter um papel mais central na alimentação diária, e a ausência de regras amplia a oferta desses produtos.
A pesquisa também aponta desigualdades regionais. Capitais das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram a maior parte das normas de regulação, enquanto no Norte e no Nordeste ainda há cidades sem qualquer tipo de regulamentação.
Para os pesquisadores, o ambiente escolar é decisivo na formação de hábitos alimentares. “Se o adolescente percebe que naquele espaço onde passa muitas horas do dia não há esse tipo de alimento, isso ajuda a formar um padrão alimentar mais saudável, que pode se estender para fora da escola”, afirma Laura Luciano Scaciota, pesquisadora da USP e primeira autora do estudo.
Os autores defendem que os resultados reforçam a importância de políticas públicas mais amplas, incluindo a criação de uma legislação nacional que restrinja a comercialização e a publicidade de ultraprocessados nas escolas.
